Entre aquilo que existe e aquilo que é permitido imaginar Toda sociedade constrói imagens sobre o que considera possível. Não apenas possibilidades práticas, mas possibilidades humanas. Quem pode amar. Quem pode desejar. Quem pode ser visto como autônomo. Quem pode ocupar determinados espaços. Quem pode ser reconhecido como sujeito pleno. Essas imagens raramente aparecem como regras explícitas. Elas circulam em narrativas, costumes, representações e formas de linguagem que, ao longo do tempo, passam a parecer naturais. Mas aquilo que parece natural quase sempre foi aprendido. O corpo antes da experiência Nenhum corpo chega ao mundo completamente neutro. Antes mesmo que…
Autor: Bianca Andretta
Dos palcos da infância ao algoritmo: quem garante que uma criança pública pode descer do palco quando cresce? Toda história que parece ser uma escolha começa muito antes de parecer uma escolha de fato. Começa quando alguém ainda nem sabe que está sendo observado — ou pior: quando aprende cedo demais que ser visto é, em si, uma forma de existir. O mundo sempre gostou de plateias. Em Roma, davam pão. Depois vieram os circos, os auditórios e, hoje, vieram os algoritmos. O espetáculo só trocou de forma, mas a lógica permanece sentada na primeira fila. Mudaram as luzes, mas…
Toda história que importa começa antes do verbo.Antes da cena.Antes de qualquer tentativa de explicar o que não cabe numa frase. Começa naquele silêncio onde o mundo decide, sem admitir,quem pertence e quem precisa pedir licença para ser.É ali que o anti-herói nasce —não como símbolo de glória,mas como consequência da desatenção coletiva. Ele surge quando a norma se veste de naturale começa a ditar quais corpos são “fáceis” de lere quais precisam ser traduzidos.Quando a sociedade, com a suavidade de quem não percebe o próprio peso,instala aquela velha húbris:a arrogância de acreditar que só existe um jeito certo de…
Em 1963, Paul Simon começou a tecer, nota por nota, verso por verso, uma música que nasceria quase por acaso. Quando foi lançada em 1964 por Simon & Garfunkel, The Sound of Silence passou despercebida, mas seu silêncio já carregava uma força invisível. Era o eco de uma época turbulenta: a Guerra do Vietnã, a contracultura em ebulição e, pouco depois, o assassinato de John F. Kennedy — presidente dos Estados Unidos entre 1961 e 1963, lembrado por seu carisma e pelas tentativas de avanços sociais e diplomáticos, antes de ser tragicamente assassinado em Dallas — transformavam o mundo em…
A neurologia, essa ciência das delicadezas invisíveis, estuda falhas e colapsos que nos atravessam — na fala, na linguagem, na visão, na memória, na percepção sensorial e, por vezes, até na ideia de ser alguém. Com o tempo, as imagens do cérebro ficaram mais nítidas. Mas nitidez, sozinha, não basta. Foi aí que surgiram vozes como a de Oliver Sacks — neurologista que escutava além das sinapses. Sacks propôs a neurofenomenologia do self: uma neurologia que reconhece a subjetividade como parte essencial do diagnóstico. Para ele, a doença não era apenas uma interrupção física, mas um abalo no “quem” da…
“Macabéa só brilha quando morre. E a gente, quando começa a ser visto?” Tem gente que só aparece depois que vai embora. Tem corpo que só vira presença quando vira ausência. Vidas que só ganham nome quando acabam. Rodrigo, narrador de A Hora da Estrela, diz que “a morte é um encontro consigo”. Mas e quem nunca foi encontrado em vida? Quantas pessoas com deficiência seguem invisíveis, sem que ninguém perceba seu brilho? Macabéa, sombra apagada, palavra engolida, amor não correspondido — só ao morrer vira tragédia, nome, reconhecimento. Essa pergunta incômoda reverbera: é preciso morrer para ser visto? O…
Maternagem também é resistir com o próprio corpo Começar por aqui não é aleatório. Antes da pauta, do roteiro, da entrevista, da teoria: o corpo. E mais do que isso — o corpo de quem materna. Corpo com dor, com espasmo, com cuidado redobrado. Corpo que não aparece nas propagandas de fralda ou nas capas de revista. Corpo com deficiência. A maternagem atípica ainda é um ponto cego nas políticas públicas, na mídia e até nas conversas entre mães. Quando uma mulher com deficiência engravida ou adota, o que mais escuta é espanto, julgamento e infantilização. O mundo ainda pergunta:…
O que pulsa por trás do desejo de curar um corpo com deficiência? Onde termina o cuidado e começa a correção? A rizotomia dorsal seletiva cirurgia que corta raízes nervosas para aliviar a rigidez da paralisia cerebral é uma dessas fronteiras. Entre a esperança e o risco, entre o bisturi e a autonomia, há um corpo. É nele que queremos olhar, sentir, pensar. Há corpos que chegam antes das palavras. Corpos que pisam o mundo sob o peso de um veredito imediato: “é preciso fazer algo”. Antes mesmo de descobrirem seus contornos, já são atravessados por metas de correção. Antes…
Uma jornada sem rede, sem pausa e sem volta até o corpo pedir socorro. Burnout não é só “cansaço demais”. Também não é frescura, drama ou falta de vocação. É uma síndrome reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS): um fenômeno ocupacional causado pelo estresse crônico no trabalho quando esse estresse não é bem administrado, nem por quem o sente, nem por quem o organiza. Três dimensões definem esse esgotamento: o esgotamento emocional aquele cansaço que vai além do corpo. É o corpo que levanta, mas a alma que não vem. A despersonalização a pessoa se desconecta do outro, trata…
Quando o corpo cala, mas a vida continua dizendo O modelo biomédico tenta enquadrar a vida em códigos. Reduz corpos àquilo que não funcionaria como “deveria”. Rebaixa existências à ausência de norma. Ele é ensinado, aplicado e reproduzido como verdade mesmo quando ignora tudo aquilo que não cabe num laudo: o desejo, a história, o nome, o tempo, o cotidiano, o afeto, o silêncio. É um modelo que trata corpos como desvios. E que se organiza para reparar, controlar ou conter esses desvios mesmo que isso custe escuta, subjetividade ou liberdade. Mas tem gente que atravessa isso sem deixar que…