Quando o corpo cala, mas a vida continua dizendo
O modelo biomédico tenta enquadrar a vida em códigos. Reduz corpos àquilo que não funcionaria como “deveria”. Rebaixa existências à ausência de norma. Ele é ensinado, aplicado e reproduzido como verdade mesmo quando ignora tudo aquilo que não cabe num laudo: o desejo, a história, o nome, o tempo, o cotidiano, o afeto, o silêncio. É um modelo que trata corpos como desvios. E que se organiza para reparar, controlar ou conter esses desvios mesmo que isso custe escuta, subjetividade ou liberdade. Mas tem gente que atravessa isso sem deixar que isso a defina. Gente que vive apesar da tentativa constante de ser explicada. Lorena é uma dessas pessoas. A primeira coisa que ela me diz, sem tentar me provar nada, é: “Por mais que eu tenha dificuldades, eu sou feliz.” Ela não fala isso como justificativa. Nem como defesa. Só como uma verdade pequena e inteira, daquelas que a gente só reconhece quando é a própria pele que carrega.

Antes do silêncio: a menina inteira
Antes de qualquer diagnóstico, antes de qualquer rótulo, existia uma menina que andava de skate, jogava ping pong, fazia gols no futsal e guardava medalhas nas gavetas. Lorena fala da infância como quem fala de um tempo inteiro não há fragmento, não há ausência, não há “apesar de”. Ela gostava de muitas coisas. Brincava, imaginava, competia. Vivia. A pergunta sobre quando sentiu vontade de se comunicar com o mundo não encontra uma resposta imediata. Porque talvez ela já se comunicasse ali, entre uma partida e outra, entre um giro de skate e um gol.
Mas houve um momento específico em que essa vontade ganhou forma pública — depois de uma cirurgia delicada, entre as idas e vindas de um cotidiano hospitalar que deixava pouco espaço pra leveza. “Eu nunca pensei em me mostrar para o mundo, até que eu operei. Eu estava num momento muito difícil… Vi um amigo um dia, e no outro, ele já tinha falecido. Então, pra sair um pouco dessa vida de hospital, eu pedi pro meu irmão criar um canal pra mim. E daí eu me expus.”
Não foi sobre se “mostrar”. Foi sobre sobreviver. Sobre buscar ar em meio ao peso. Sobre inventar uma forma de seguir do seu jeito.
Quando o corpo não responde
Lorena passou por duas cirurgias. Na primeira, a fala ainda vinha enrolada, mas vinha. Era um esforço que o corpo fazia para continuar se dizendo. Na segunda, não. Ela acordou e não conseguia mais falar. “Eu só conseguia gritar.” E o grito não era dor. Era tentativa. Era desespero em forma de som bruto. Era vontade de dizer e não conseguir. “Eu queria me comunicar, queria conversar… mas não conseguia.”
A angústia não estava apenas na ausência da fala. Estava na presença da vontade. Porque Lorena continuava ali, inteira, pensando, sentindo, querendo dizer coisas simples e urgentes: que comida ela queria, que comida ela não queria. Que estava com medo. Que precisava de mão. “Às vezes eu só queria dizer: mãe, me dá a mão, que eu tô com medo desse exame.”
O que ela viveu deixou marcas que não aparecem nos exames de imagem. Foi no corpo, sim no andar, nos gestos, na fala. Mas foi também no jeito de olhar pro mundo depois disso. E de se fazer escutar quando parecia não haver como.
O cuidado na escuta
Durante o tempo de internação, Lorena sentia falta de muita coisa. Mas uma presença seguia firme, mesmo longe fisicamente: o irmão. Ele não podia estar no hospital com ela Lorena tratava em Ribeirão Preto, a família morava em Jaú. Mas quando ela voltou pra casa, ele estava lá. Inteiro. Sabendo. Sabia do que ela gostava. Sabia o que podia fazer bem. Sabia escutar, mesmo sem palavra nenhuma dita.
“Teve um dia que ele pegou um monte de caixas, colocou um celular, um fone no meu ouvido, e colocou vídeos que ele sabia que eu gostava. Eu fiquei assistindo. Foi muito legal.” Esse gesto não era sobre distração. Era sobre reconhecimento. Sobre alguém que conhecia Lorena tanto, que conseguia escutá-la mesmo quando a voz não vinha.
Foi nesse ambiente de afeto, vínculo e imaginação que nasceu o Careca TV canal que ela criou para se dizer ao mundo, do seu jeito, no seu tempo. “Eu quis chamar de Careca TV porque eu era careca, e na época tinha um monte de canal com final TV, então eu quis ser mais uma.”
Não era sobre performance. Era sobre presença. Sobre ocupar um espaço. E dizer: eu também estou aqui.
A internet como lugar de risco e abrigo
Quando você existe de verdade na internet mostrando o que vive, o que sente, o que é você vira espelho. E o espelho, às vezes, incomoda. Lorena sabe bem disso. Teve uma vez que sua mãe tirou uma foto dela com os olhos fechados. E alguém ou algumas pessoas decidiram que aquilo era engraçado. Fizeram uma montagem. Colocaram a imagem dela dentro de um caixão. Publicaram como se Lorena tivesse morrido.
Mas a mesma Lorena, em outro canto da internet, teve um efeito oposto. Um menino comentou um vídeo dela com uma frase curta, mas imensa: “Eu estava prestes a me matar. Aí eu vi seu vídeo, fiquei feliz e desisti.” A mesma imagem que inventaram como morte… foi também vida. Uma vida salva por outra que ousou aparecer careca, diferente, lutando e rindo.
Lorena sabe o preço de ser vista. Mas também sabe o valor disso. Sabe o quanto é revolucionário continuar existindo não apesar das violências, mas contra elas.
Crescer diante das câmeras
Lorena não tinha uma estratégia de comunicação. Não havia roteiro, algoritmo ou estudo de audiência. Havia ela. Sendo ela. “Eu nunca pensei muito em estratégia de comunicação, até porque eu era muito novinha, né? Eu só fui eu mesma. Só queria ser eu mesma.”
Foi assim que a Careca TV cresceu. Natural, honesta, afetiva. A internet inteira viu Lorena crescendo, criando, aprendendo a se reconhecer no corpo, na fala e no mundo. “Sim, eu me reconheço. Eu fico muito feliz de ver meus vídeos antigos. De ver toda a minha evolução. É emocionante, sabe? É como se fosse um legado. É um legado, na verdade.”
Quando o canal bateu 100 mil inscritos, ela diz que nem acreditava: “Tem vezes que eu acho que até hoje não caiu a ficha. Fiquei muito feliz, lógico, mas às vezes parece que eu não sei se acredito ainda. É muita gente. E eu fico… não tenho outra palavra pra descrever: é felicidade. Muita felicidade mesmo.”
A terapia como território de vínculo
O tratamento exigiu muito: cirurgias, sessões de rádio, quimioterapia. O corpo sentiu. O tempo mudou de ritmo. Mas Lorena encontrou um jeito de atravessar isso com humor, leveza e vínculo. “Era ruim, mas era bom, sabe?”
Hoje, ela não faz mais rádio nem químio. Mas continua em reabilitação. Sessões de fisioterapia, terapia ocupacional, hidroterapia. Não porque esteja “quebrada”, mas porque o corpo pede atenção constante. E ela escuta. “É gostoso. A gente já criou uma amizade.” Não é só terapia. É troca. É afeto em formato de cuidado. É continuidade.
O que fica quando quase tudo para
Há processos que interrompem o corpo de repente. Um tropeço no cérebro, uma pequena falha no equilíbrio das conexões e, de uma hora pra outra, o que era simples vira esforço, e o que era automático precisa ser reaprendido.
Às vezes, a fala desaparece. Outras vezes, é o controle do corpo que se dispersa, como se um ímã tivesse perdido sua força no centro do movimento. E o que vem depois não é uma simples volta ao normal. É uma reinvenção do que se pode ser.
Alguns desses episódios chegam com febre e confusão, confundidos com qualquer coisa menor. Mas, por trás da aparente simplicidade, há impactos profundos, principalmente quando acontecem em corpos ainda em formação. Eles atravessam o cotidiano com o silêncio, com a dificuldade de se comunicar, com a exaustão, com o susto de quem observa de fora sem entender.
Do próprio jeito
Lorena atravessou isso. E voltou. Mas voltou diferente e não por ter sido vencida, e sim por ter vencido. Passou por pausas involuntárias, por dias em que o corpo parecia ter esquecido como se expressa. Teve que fazer alianças com o tempo, com a paciência, com a repetição dos gestos. E ainda assim, mesmo quando parecia não haver fala possível, havia comunicação. Nos olhos, nos dedos, na presença.
Agora formada em Produção Audiovisual, Lorena vive uma autonomia que ela mesma descreve como “surreal”. Prepara o próprio almoço, toma banho sozinha, fica em casa sem ajuda. “É muito legal NÃO precisar ficar dependendo dos outros e conseguir fazer minhas próprias coisas, do meu jeito, na minha hora, na minha vontade.” Ela ainda sonha em viajar sozinha. “Minha mãe é minha companheira em todos os lugares, mas meu sonho é viajar sozinha.”
O que se vê agora é uma jovem mulher que comunica com o que tem e com o que um dia quase perdeu. Que compreende o mundo com intensidade porque já esteve nas bordas dele. Que sabe, na pele, que o que chamam de limitação é só outro jeito de começar. E quem escuta com atenção, entende: certas condições nem precisam ser ditas para se fazerem entender. Estão nos gestos, nas pausas, nas curvas que a vida impõe.
Lorena não é sobre o que aconteceu com ela. É sobre o que ela fez com isso.
