Uma jornada sem rede, sem pausa e sem volta até o corpo pedir socorro.

Burnout não é só “cansaço demais”. Também não é frescura, drama ou falta de vocação. É uma síndrome reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS): um fenômeno ocupacional causado pelo estresse crônico no trabalho quando esse estresse não é bem administrado, nem por quem o sente, nem por quem o organiza.

Três dimensões definem esse esgotamento: o esgotamento emocional aquele cansaço que vai além do corpo. É o corpo que levanta, mas a alma que não vem. A despersonalização a pessoa se desconecta do outro, trata com frieza ou ironia, como se precisasse vestir uma couraça para continuar funcionando. E a redução da realização pessoal a sensação de que nada do que se faz tem valor ou faz diferença.

O burnout não chega de uma vez. Ele se aproxima em silêncio: uma tarefa adiada, uma insônia persistente, uma resposta mais seca do que o habitual. Quando se instala, toma tudo: motivação, criatividade, saúde.

Christina Maslach, que cunhou o conceito, diz que burnout é o custo de cuidar. E o filósofo Byung-Chul Han nos lembra que vivemos numa era em que até o cuidado virou meta e não mais gesto. Burnout não nasce no indivíduo. Ele nasce nas estruturas. E floresce onde falta suporte, escuta e humanidade. A pergunta que fica é: quem cuida de quem cuida?

Quando o cuidado adoece

Cuidar deveria ser sinônimo de presença, afeto, vínculo. Mas, para milhares de mulheres brasileiras, esse verbo se transforma em sinônimo de sobrecarga. São as mães de crianças com deficiência, que passam a vida equilibrando amor, culpa, exaustão e abandono quase sempre sozinhas.

Essas mulheres vivem jornadas triplas: domésticas, maternas e emocionais. Muitas perderam o emprego, o parceiro, o sono e seguem sustentando tudo com o que resta do próprio corpo. Segundo dados do IBGE e estudos acadêmicos recentes, mais de 60% das mães de crianças com deficiência não exercem atividade remunerada. Isso agrava a vulnerabilidade social e isola ainda mais quem já vive uma rotina puxada por laudos, exames, tratamentos, burocracias estatais e escolas que nem sempre acolhem.

E mesmo assim, elas continuam. Mas a que custo?

Burnout, mães e o sistema que adoece

O amor, por si só, não previne o esgotamento. Pelo contrário: quando não há estrutura para sustentar o cuidado, o afeto pode virar um ponto de colapso.

Mães de crianças com deficiência são cuidadoras em tempo integral. E esse cuidado, quando não é compartilhado, planejado ou apoiado, se torna um fator de risco para a saúde mental. Pesquisas mostram que quanto maior a dependência da criança, maior o índice de insônia, cansaço crônico, crises de ansiedade e depressão na mãe. Em contextos de baixa renda e ausência paterna, esses sintomas se intensificam.

Mas o problema não está no cuidado em si. Está no abandono que essas mulheres enfrentam enquanto cuidam.

A sobrecarga tem nome: gênero, deficiência e desigualdade

O cuidado não recai sobre todas as pessoas. Ele tem cor, classe e gênero. E, no Brasil, ele tem nome: mulheres.

Mais especificamente, mulheres que vivem na interseção entre desigualdade de gênero, exclusão social e capacitismo estrutural. Para muitas mães atípicas, a maternidade não trouxe uma rede trouxe uma avalanche: diagnóstico, terapias, laudos, faltas ao trabalho, justificativas, lutas por direitos básicos e noites mal dormidas.

Enquanto isso, o Estado se omite e a sociedade se cala. O burnout, nesse contexto, deixa de ser um colapso individual. É um sintoma coletivo. É o grito de uma estrutura que exige demais e devolve de menos.

O autocuidado não é luxo: é urgência

Não basta dizer que elas precisam descansar. É preciso criar condições para que o descanso exista.

Projetos como o “Cuide-se para Cuidar”, realizados por estudantes da área da saúde em Minas Gerais, mostraram que existem caminhos. Durante seis semanas, mães atípicas participaram de rodas de conversa inspiradas na educação popular. Falaram sobre autoestima, saúde mental, sono e rotina.

Esses encontros não curaram tudo. Mas devolveram um pouco de voz, pausa e presença. Porque, nesse contexto, autocuidado não é vaidade. É sobrevivência. É resistência. É política. Cuidar de quem cuida não é bônus. É base.

O que é estrutura quando a base é o cuidado?

Prevenir o burnout materno exige mais do que empatia. Exige ação. Políticas públicas robustas precisam entrar em cena, com foco tanto na urgência do agora quanto na transformação estrutural de longo prazo.

Entre as medidas fundamentais estão: creches e escolas de tempo integral para que as mães possam trabalhar, descansar, existir para além do cuidado; licença-maternidade ampliada com suporte financeiro real para permitir não só o vínculo com a criança, mas também o cuidado com quem cuida; apoio psicológico acessível terapias, grupos de apoio e saúde mental como direito, não como luxo; combate à desigualdade de gênero no mercado de trabalho com equidade salarial, respeito à maternidade e ambientes que não punem a mulher por ter filhos; flexibilização de jornadas e trabalho remoto para que o emprego seja possível sem sacrificar a saúde.

Essas ações precisam ser acompanhadas de incentivos a empresas, formações sobre gestão do tempo e redes de apoio entre mães e famílias. Cuidar de quem cuida também é responsabilidade do Estado, das empresas, da comunidade.

O cansaço como destino: quando a exaustão é institucionalizada

O problema não é falta de soluções. É a naturalização do colapso.

Durante gerações, o cansaço das mães foi visto como prova de amor. A exaustão virou parte do papel materno. Quem reclama, é ingrata. Quem pausa, é egoísta. Quem adoece, é fraca.

Essa romantização da renúncia é uma forma de violência. É o que permite que estruturas sigam funcionando às custas de mulheres que nunca puderam parar. E é também o que impede que políticas públicas saiam do papel: porque o sofrimento das mães ainda é considerado aceitável.

Se o cuidado seguir sendo visto como destino e não como escolha compartilhada , o burnout será regra. Não exceção.

Que o cuidado não nos custe a vida

Há um silêncio que corre por trás das estatísticas, dos diagnósticos e dos editais: o silêncio da suposição de que as mães aguentam.

Que aguentam tudo.
Que aguentam sempre.
Que nasceram para isso.

Mas não nasceram.

Cuidar não deveria custar a própria saúde mental. O burnout materno não é só um colapso. É um grito.

Por isso, essa reportagem não se encerra: ela convoca. Convoca a olhar com lucidez para o custo invisível do cuidado. Convoca o Estado, as instituições e a sociedade a entender que mães também precisam de amparo, pausa, escolha. E convoca cada uma de nós a dizer, com clareza: nunca mais naturalizar a exaustão.

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