A gente cresce acreditando que o amor é uma espécie de linha do tempo. Que chega, uma hora, como um destino certeiro. Nos ensinam que o amor é sequência natural da vida: nascer, crescer, estudar, se apaixonar. Mas algumas de nós — muitas de nós — aprendem cedo que não é bem assim.
A verdade é que o amor não é automático. Ele não é promessa, não é garantia, não é igual pra todo mundo. Pra quem tem um corpo fora do roteiro, o amor vem com interrogações. Demora. Dói. Às vezes, não vem.
Nos olham com ternura, com cuidado, com admiração. Mas quase nunca com desejo. Nos reconhecem como fortes, sensíveis, até inspiradoras. Mas raramente como mulheres a serem amadas. A serem escolhidas.
E aí o mundo começa a repetir uma mentira com cara de destino: que o amor não foi feito pra gente. Que talvez a gente tenha outras missões. Outros papéis. Mas não o de amar e ser amada como qualquer pessoa quer: com abraço inteiro, com toque inteiro, com presença inteira.
Só que eu aprendi — na ausência e na espera, no silêncio e no grito — que amar não é privilégio. É direito. E desejar, ser desejada, não é um capricho: é parte da vida. Da minha. Da sua. Da de todo mundo.
Esse texto começa aqui. Não com estatísticas. Não com manual. Começa com uma fresta: um parágrafo que quer abrir espaço onde o mundo costuma fechar a porta. Uma frase que insiste em dizer, com todas as letras: eu também sou feita pra amar. E pra ser amada.
O amor que nos negam
Antes mesmo do primeiro beijo, vem o primeiro veto. Aos olhos do mundo, corpos com deficiência não são vistos como corpos que amam — ou que podem ser amados. São cuidados. Observados. E, muitas vezes, silenciados. Mas quase nunca convidados ao centro da pista. Ao centro da vida.
Esse fenômeno tem nome: capacitismo afetivo. É o olhar atravessado que infantiliza. É o silêncio que supõe que pessoas com deficiência não sentem desejo. É o preconceito que transforma o afeto em exceção. É a cultura que ensina, explícita ou implicitamente, que amar alguém com deficiência é um gesto de bondade — e não de escolha, de desejo, de reciprocidade.
Desde cedo, aprendemos que o nosso corpo precisa de mediação. Se estamos acompanhadas, falam com quem está ao lado — não conosco. Se nos apaixonamos, acham bonito, quase como encenação. Se ousamos dizer que queremos uma relação com toque, com presença, com sexo, ouvem como quem escuta um erro.
Mas a verdade é simples — e precisa ser dita em voz alta: pessoas com deficiência não são anjos, nem eternas crianças, nem seres neutros. Somos gente inteira. Com desejo, com vontade, com contradições, com sonhos de laço e de lençol.
Desconstruindo o corpo normativo: a teoria crip como lente
A teoria queer, que já questionava normas rígidas de gênero e sexualidade, inspirou a emergência da teoria crip, que escancara a corponormatividade — a exigência social de um corpo considerado “normal”, produtivo e eficiente.
O termo “crip” é assumidamente provocador. Ele denuncia a exclusão social de pessoas com deficiência e, ao mesmo tempo, reivindica a diferença como potência política. Essa teoria nos lembra que não é o corpo que está errado — é o olhar que o julga.
Assim, o corpo com deficiência deixa de ser visto como “incompleto” ou “sem potência” e passa a ser reconhecido como espaço de existência, desejo e autonomia.
Mitos que adoecem e precisam ser superados
A sexualidade de pessoas com deficiência ainda é cercada de mitos nocivos:
Mito da assexualidade: a ideia de que pessoas com deficiência não sentem desejo.
Mito da hiperssexualidade: a crença de que qualquer manifestação afetiva é exagerada.
Mito da inabilidade para amar: como se fosse impossível construir relações de afeto, erotismo e parceria.
Mito da disfunção sexual: a visão de que deficiência significa incapacidade de sentir prazer.
Mito da problemática reprodutiva: a ideia de que reprodução é sempre impossível ou arriscada — justificando práticas violentas como a esterilização compulsória.
Essas crenças não só são falsas, como violam direitos. Combater mitos é um compromisso urgente que exige educação sexual inclusiva, políticas públicas de respeito e o protagonismo das próprias pessoas com deficiência.
amar é resistir
Ainda que os desafios sejam muitos, é urgente reconhecer: amor e sexualidade são direitos humanos. Não podem ser negados ou reduzidos a exceção.
Romper com o capacitismo afetivo e com a corponormatividade é abrir espaço para que histórias reais de desejo, afeto e liberdade sejam vividas.
Porque amar é um direito. Amar é resistir. Amar é existir por inteiro.
