A seleção

Nenhuma leitura acontece sem escolhas.

Toda interpretação destaca alguns elementos e deixa outros em segundo plano.

O problema não está na existência dessa seleção.

Está nos critérios que a orientam.

O desconforto

Existem aspectos da experiência que produzem desconforto.

Eles desafiam expectativas.

Complicam narrativas.

Questionam explicações já estabelecidas.

E, justamente por isso, muitas vezes encontram resistência para permanecer visíveis.

O que desaparece

Nem todo apagamento acontece de forma explícita.

Algumas experiências não são negadas.

Apenas deixam de ser mencionadas.

Deixam de ocupar espaço.

Deixam de participar da construção da narrativa principal.

Com o tempo, aquilo que foi omitido começa a parecer inexistente.

A versão aceitável

Toda narrativa tende a produzir versões mais confortáveis da realidade.

Versões que exigem menos revisão.

Menos conflito.

Menos questionamento.

Mas aquilo que causa incômodo nem sempre desaparece apenas porque deixou de ser reconhecido.

O retorno

Experiências apagadas costumam retornar.

Nem sempre da mesma forma.

Nem sempre no mesmo lugar.

Mas retornam.

Porque aquilo que existe continua produzindo efeitos, mesmo quando não recebe visibilidade.

O que resiste

Talvez uma das formas mais persistentes de resistência seja justamente continuar existindo apesar do apagamento.

Continuar produzindo presença apesar da omissão.

Continuar atravessando a narrativa mesmo quando ela tenta se organizar sem determinadas partes da realidade.

Porque aquilo que incomoda não desaparece apenas por ter sido retirado do enquadramento.

Às vezes, é justamente o que foi deixado de fora que mais revela os limites daquilo que está sendo visto.

Share.
Leave A Reply