A exigência

Algumas experiências parecem ser acompanhadas por uma expectativa constante de explicação.

Como se existir não fosse suficiente.

Como se cada escolha, cada característica ou cada forma de presença precisasse ser traduzida para se tornar legítima.

A explicação passa a ocupar o espaço da própria experiência.

O hábito de justificar

Com o tempo, justificar pode se transformar em rotina.

As respostas ficam prontas.

Os argumentos são organizados.

As explicações são repetidas.

E aquilo que começou como diálogo passa a funcionar como obrigação recorrente.

O peso da tradução

Traduzir constantemente a própria existência produz desgaste.

Não porque a linguagem seja um problema.

Mas porque nenhuma vida cabe inteiramente em justificativas.

Sempre existe algo que escapa às explicações disponíveis.

Algo que permanece maior do que qualquer argumento.

O intervalo

Existem momentos em que a necessidade de explicação enfraquece.

Momentos em que a experiência deixa de buscar validação.

Momentos em que a existência não precisa ser defendida para continuar existindo.

É nesse intervalo que surge outra possibilidade de relação consigo mesma e com o mundo.

O prazer

Talvez exista prazer em não precisar explicar tudo.

Em não precisar transformar cada aspecto da vida em argumento.

Em não precisar converter continuamente experiência em justificativa.

Não como recusa ao diálogo.

Mas como recusa à obrigação permanente de traduzir a própria existência.

A liberdade

Porque algumas das formas mais simples de liberdade podem nascer exatamente aí.

Na possibilidade de existir sem apresentação prévia.

Sem defesa.

Sem autorização.

Sem necessidade de convencimento.

Apenas existir.

E permitir que a experiência ocupe o espaço que já lhe pertence.

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