O recorte

Toda leitura seleciona.

Nenhum olhar alcança tudo ao mesmo tempo.

Para compreender, é preciso destacar algumas coisas e deixar outras em segundo plano.

O problema não está na existência do recorte.

Está na permanência dele.

A redução

Quando uma mesma seleção se repete continuamente, ela começa a produzir redução.

Aquilo que era apenas uma parte passa a ocupar o lugar do todo.

Aquilo que era um aspecto passa a funcionar como definição.

E a complexidade começa a perder espaço.

O acúmulo

Nenhum recorte atua sozinho.

Eles se acumulam.

Camada após camada.

Interpretação após interpretação.

Com o tempo, a experiência deixa de encontrar apenas um olhar limitado.

Passa a encontrar um sistema inteiro de simplificações.

O nascimento da raiva

A raiva nem sempre surge do conflito imediato.

Muitas vezes ela nasce da repetição.

Da sensação de encontrar sempre a mesma leitura.

Da percepção de que determinadas partes continuam sendo ignoradas.

Da insistência em reduzir aquilo que nunca foi simples.

O que a raiva revela

Costuma existir desconforto diante da raiva.

Mas ela também revela alguma coisa.

Revela limites.

Revela tensões.

Revela pontos onde a realidade deixa de caber nas explicações disponíveis.

Nem toda raiva destrói.

Algumas expõem problemas que permaneceriam invisíveis sem ela.

Além do recorte

Talvez a questão não seja eliminar completamente os recortes.

Isso seria impossível.

Talvez a questão seja impedir que eles se transformem em fronteiras definitivas.

Porque nenhuma leitura deveria possuir autoridade suficiente para encerrar a complexidade de um sujeito.

E toda vez que essa complexidade é reduzida, algo continua insistindo em existir para além dela.

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