A presença

É possível estar cercada de pessoas e, ainda assim, permanecer distante.

Não por ausência de contato.

Não por falta de convivência.

Mas porque convivência e compreensão não são a mesma coisa.

O encontro parcial

Toda relação produz algum nível de leitura.

As pessoas observam.

Interpretam.

Organizam impressões.

Constroem explicações.

Mas nem toda leitura alcança aquilo que pretende compreender.

Muitas vezes ela encontra apenas uma parte.

O que permanece inacessível

Existem dimensões da experiência que não se tornam visíveis apenas pela proximidade.

O tempo não garante acesso total.

A convivência não elimina todos os limites.

E a familiaridade não transforma automaticamente interpretação em compreensão.

A distância invisível

Algumas distâncias não são físicas.

Elas existem mesmo quando não podem ser medidas.

Mesmo quando não são percebidas.

Mesmo quando ninguém fala sobre elas.

São produzidas pelo espaço que separa aquilo que é vivido daquilo que é compreendido.

A solidão

Talvez uma das formas mais silenciosas de solidão surja justamente aí.

Não na ausência de pessoas.

Mas na impossibilidade de ser acessada por inteiro.

Não porque exista recusa.

Não porque exista desinteresse.

Mas porque toda leitura encontra limites.

O que permanece

Ainda assim, a impossibilidade de uma compreensão total não impede os encontros.

Ela apenas lembra que nenhum encontro elimina completamente o mistério do outro.

Sempre existe algo que permanece além da interpretação.

Algo que continua existindo para além das versões construídas sobre ele.

E talvez seja justamente nesse espaço que a singularidade resiste.

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