A imagem confortável

Algumas narrativas produzem figuras fáceis de compreender.

Figuras organizadas.

Previsíveis.

Controláveis.

Quanto menos contradições uma imagem apresenta, mais confortável ela costuma parecer para quem a observa.

A simplificação

Toda simplificação elimina alguma coisa.

Para transformar alguém em símbolo, é preciso reduzir complexidades.

Para transformar alguém em exemplo, é preciso selecionar características.

O que não se encaixa na narrativa costuma ser deixado de lado.

O que fica de fora

Desejo.

Raiva.

Ambição.

Contradição.

Insegurança.

Nenhuma dessas experiências desaparece quando deixa de ser reconhecida.

Elas apenas deixam de ocupar espaço dentro da leitura dominante.

A construção da pureza

A pureza raramente descreve uma experiência humana real.

Ela funciona mais como uma expectativa.

Uma tentativa de organizar pessoas em versões mais simples do que realmente são.

Quanto mais forte essa expectativa se torna, menor tende a ser o espaço reservado para a complexidade.

O preço da idealização

Toda idealização produz distância.

Não porque aproxima alguém daquilo que é.

Mas porque aproxima alguém daquilo que se espera que seja.

A imagem ganha força.

A pessoa perde contorno.

O direito à complexidade

Nenhum sujeito existe apenas nas características que parecem mais confortáveis para os outros.

A experiência humana é atravessada por conflitos, desejos, limites, incoerências e transformações.

E talvez a recusa da pureza seja justamente a defesa dessa complexidade.

Não como falha.

Mas como parte inseparável da condição humana.

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