A divisão
Algumas leituras produzem uma separação curiosa.
Como se determinadas características pudessem existir isoladamente.
Como se fosse possível reconhecer uma dimensão de alguém enquanto outras permanecem fora do campo de visão.
O conforto da fragmentação
A fragmentação costuma oferecer uma sensação de organização.
Ela simplifica.
Reduz complexidades.
Transforma experiências múltiplas em categorias mais fáceis de administrar.
Mas aquilo que simplifica também pode ocultar.
O que permanece inteiro
Nenhuma experiência humana acontece em partes completamente independentes.
Corpo, pensamento, afeto, desejo, memória e linguagem não operam como territórios isolados.
Eles se atravessam continuamente.
Ainda assim, certas formas de leitura insistem em produzir divisões rígidas.
O reconhecimento parcial
Existe uma diferença entre reconhecer algo e reconhecer alguém.
O reconhecimento parcial pode identificar uma característica específica.
Mas continua distante da complexidade que sustenta a existência de um sujeito.
O fragmento é percebido.
O conjunto permanece incompleto.
A lógica da separação
Toda separação produz efeitos.
Quando uma dimensão recebe legitimidade e outra é ignorada, cria-se uma hierarquia silenciosa entre partes que nunca estiveram verdadeiramente separadas.
A leitura passa a funcionar por seleção.
E a seleção passa a funcionar como verdade.
O retorno da complexidade
Mas a complexidade possui uma característica persistente.
Ela retorna.
Mesmo quando simplificada.
Mesmo quando reduzida.
Mesmo quando reorganizada em categorias mais confortáveis.
Aquilo que foi separado continua pertencendo ao mesmo sujeito.
E, cedo ou tarde, volta a desafiar as fronteiras criadas para contê-lo.
