O impossível

Nem toda impossibilidade nasce da realidade.

Algumas nascem da expectativa.

Outras nascem da repetição.

E algumas passam tanto tempo circulando que deixam de parecer interpretação.

Passam a parecer fato.

O que não cabe

Toda sociedade produz ideias sobre aquilo que considera possível.

Mas também produz ideias sobre aquilo que considera improvável.

Quando determinadas experiências permanecem fora dessas expectativas, elas deixam de ser vistas como parte do cotidiano.

Passam a ocupar o território da exceção.

A força da expectativa

A expectativa não determina apenas o que será encontrado.

Ela também influencia aquilo que pode ser imaginado.

Quanto mais estreito é o campo da expectativa, menor tende a ser o espaço disponível para reconhecer experiências que escapam ao padrão.

A construção do improvável

O improvável raramente surge sozinho.

Ele costuma ser produzido por sucessivas formas de leitura.

Interpretações se acumulam.

Narrativas se repetem.

Categorias se consolidam.

E aquilo que poderia ser visto como parte da diversidade da experiência humana passa a ser tratado como algo extraordinário.

O peso da exceção

Transformar uma experiência em exceção produz consequências.

O que é visto como exceção costuma precisar de explicação.

Precisa de justificativa.

Precisa de validação.

Como se sua existência dependesse constantemente de comprovação.

O que permanece possível

Mas a realidade não se organiza apenas pelas expectativas que existem sobre ela.

A vida continua produzindo experiências que desafiam previsões.

Continua produzindo encontros inesperados.

Continua produzindo possibilidades que não cabem em leituras anteriores.

E talvez seja justamente por isso que aquilo que hoje é chamado de impossível tantas vezes se revele apenas como algo que ainda não foi plenamente reconhecido.

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