O que a leitura permite ver

Toda leitura produz presenças. Mas também produz ausências. Ao destacar determinadas características, outras acabam sendo empurradas para fora do campo de visão. Nem sempre porque são invisíveis. Muitas vezes porque não se encaixam na narrativa que já foi construída.

O desejo fora do enquadramento

Existem experiências que parecem encontrar resistência antes mesmo de serem expressas. O desejo é uma delas. Não porque seja raro. Não porque seja excepcional. Mas porque determinadas formas de leitura simplesmente não reservam espaço para sua existência.

A seleção da complexidade

Nenhum sujeito é composto por uma única dimensão.

Ainda assim, algumas dimensões costumam receber mais legitimidade do que outras.

Capacidade.

Limitação.

Desempenho.

Superação.

Esses elementos frequentemente ocupam o centro da narrativa.

Enquanto isso, outras experiências permanecem nas margens.

O que não é esperado

Existe uma diferença entre aquilo que não existe e aquilo que não é esperado.

O que não é esperado costuma encontrar mais obstáculos para ser reconhecido.

Não porque esteja ausente.

Mas porque desafia uma imagem já estabilizada.

E toda imagem estabilizada tende a proteger a si mesma.

A ausência produzida

Algumas ausências não acontecem por falta de existência.

Acontecem por falta de reconhecimento.

O desejo continua presente.

A autonomia continua presente.

A subjetividade continua presente.

O que muda é a facilidade com que essas dimensões são percebidas.

O que permanece

Mesmo quando não encontra linguagem.

Mesmo quando não encontra espaço.

Mesmo quando não encontra reconhecimento imediato.

O desejo permanece.

Não como exceção.

Não como ruptura.

Mas como parte inseparável da experiência humana.

E aquilo que permanece existindo não deixa de existir apenas porque alguém deixou de olhar para isso.

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