Ser visto

Existem formas de reconhecimento que produzem proximidade.

Mas proximidade não é necessariamente compreensão.

Nem tudo o que é reconhecido é efetivamente encontrado.

Às vezes, o reconhecimento acontece apenas porque algo já era esperado.


O que retorna

Quando determinadas leituras se repetem por muito tempo, elas passam a parecer familiares.

A familiaridade produz conforto.

E o conforto costuma ser confundido com conhecimento.

O que retorna constantemente passa a ser percebido como verdade.


A aparência da compreensão

Nem toda interpretação nasce do encontro com aquilo que está diante dos olhos.

Muitas vezes, ela nasce do encontro com algo que já estava pronto antes.

O reconhecimento pode acontecer sem descoberta.

Pode acontecer apenas pela confirmação de uma expectativa anterior.


O recorte

Toda leitura opera por seleção.

Algo é destacado.

Algo permanece fora do campo de visão.

O problema não está na existência do recorte.

Está na transformação do recorte em totalidade.


O que permanece invisível

Quanto mais estável se torna uma leitura, menos ela percebe aquilo que deixa de fora.

A ausência desaparece.

O silêncio desaparece.

A complexidade desaparece.

Resta apenas a impressão de que tudo já foi compreendido.


A ilusão

É nesse ponto que surge a ilusão do reconhecimento.

A sensação de conhecer substitui o ato de conhecer.

A familiaridade substitui a investigação.

E aquilo que continua fora da leitura deixa de ser percebido como ausência.

Passa a ser tratado como se nunca tivesse existido.

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